Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

Reavivar a fé em Cristo nos fiéis leigos

REAVIVAR A FÉ DOS FIÉIS LEIGOS EM CRISTO

No mundo tereis tribulações, mas tende coragem.
Eu venci o mundo!
Jo 16,33
   
1. INTRODUÇÃO
1. A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe – CEAST, assumiu a “NOVA EVANGELIZAÇÃO” como tema geral da Pastoral para o Triénio 2014-2016. Depois da mensa-gem pastoral “Missionários enraízados em Cristo”, para o Ano Pastoral 2015, propomos que as comunidades cristãs estudem e reflictam sobre o dinamismo e as implicações da fé em Cristo na vida dos fiéis leigos.

2. A FÉ EM JESUS CRISTO SALVADOR
2. No centro do cristianismo, encontramos essencialmente uma Pessoa: a Pessoa de Jesus Cristo, «Filho Único do Pai, cheio de Graça e de Verdade» (Jo. 1, 14), que sofreu e morreu por nós, e que agora, ressuscitado, vive connosco para sempre. É o seguimento, «Sequela Christi», de Jesus Cristo, «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo. 14,6), que define a vida cristã. O encontro com a Pessoa de Jesus é a base da vida do cristão. Por isso, nos diz o Papa Fran-cisco na Evangelii Gaudium: «Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído» (EG 3).
A fé cristã é, ao mesmo tempo, um dom gratuito de Deus que cada pessoa é convidada a acolher e a cultivar, numa livre resposta à iniciativa divina. A fé tem, portanto, uma dimen-são pessoal insubstituível – que pela acção do Espírito Santo une cada cristão a Jesus Cristo Salvador e Revelador do rosto amoroso de Deus – e também uma dimensão comunitária irrenunciável, pois não se trata da “minha” fé, mas da fé da Igreja, da fé acolhida, celebrada, testemunhada e transmitida pelos apóstolos e pelos discípulos e discípulas do Senhor Ressuscitado, ao longo da história.
Assim se, por um lado, a fé se expressa nos seus conteúdos – o credo – que os cristãos pro-fessam, ela implica, igualmente, uma dimensão de confiança e intimidade com o mistério insondável de Deus, vivido, de forma única e irrepetível, em cada crente e, ao mesmo tem-po, em todo o Povo de Deus.
3. O dinamismo da fé, na vida de cada cristão e de cada comunidade cristã, está profunda-mente ligado às outras virtudes teologais:
- a esperança como certeza do cumprimento das promessas de Jesus Cristo referentes à vida Eterna, uma esperança que assenta em Deus como Senhor da história de cada pessoa e de toda a humanidade;
- e a caridade operante segundo o espírito das bem-aventuranças.
São estas virtudes que nos introduzem na vida de comunhão plena com Deus, enquanto peregrinamos à espera do encontro definitivo, na parusia final.

3. A identidade laical à luz da fé
4. É à luz da fé que descubro a minha vocação, ao fazer a experiência de que Deus me ama, me chama e me envia a trabalhar na sua vinha (cf. Mt 21,28). Como refere a Exortação pós- Sinodal Christifidelis Laici, Deus “chama-me e envia-me a trabalhar para o advento do Seu Reino na história: esta vocação e missão pessoal define a dignidade e a responsabilidade de cada fiel leigo e constitui o ponto forte de toda a acção formativa, em ordem ao reconheci-mento alegre e agradecido de tal dignidade e ao cumprimento fiel e generoso de tal respon-sabilidade” (CFL 58).
Deste modo, a construção do Reino de Deus no “hoje” da história, nas realidades temporais da política, do compromisso social, da economia, da cultura … constitui o elemento primor-dial da vocação e da identidade do fiel leigo. Isto não obsta a que os fiéis leigos assumam várias responsabilidades e serviços nas suas comunidades cristãs. Todavia, a autenticidade da sua vocação laical não se manifesta particularmente pela assunção de “serviços eclesiásticos”, mas, antes de mais, pelo testemunho dos valores do Evangelho na vida familiar, profissional e social, numa vivência comunitária da fé.
5. Segundo o espírito do Concílio Vaticano II, um cristão leigo contribui com a sua própria identidade laical, para a santificação do Povo de Deus. Diz-nos a Constituição Lumem Gen-tium: “tudo o que se disse do Povo de Deus vale igualmente para leigos, religiosos e cléri-gos”. Isto significa que os leigos “são os fiéis que – por haverem sido incorporados em Cristo pelo Baptismo e constituídos em Povo de Deus, participando, a seu modo, do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo – realizam, na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo o povo cristão” (LG 31).
Graças à grandeza da sua vocação em Cristo, os fiéis leigos não são, pois, meros executores de “instruções” recebidas da hierarquia da Igreja, mas - pela sua consagração baptismal - são chamados a tomar iniciativas, segundo os carismas recebidos do Espírito Santo. Todavia, o julgamento sobre a autenticidade dos carismas e o seu uso, pertence à autoridade da Igreja, a quem compete discernir e acolher os sinais do Espírito (cf. I Tes 5,12.19-21), de modo que todos os carismas concorram, na sua diversidade e complementaridade, para o bem comum (cf. LG 12). A fé deve ser vivida na Igreja e com a Igreja, embora tenha uma dimensão pessoal insubstituível.

4. A MISSÃO DOS FIÉIS LEIGOS
6. Como afirma o Papa Francisco: “todos somos chamados a crescer como evangelizadores. Devemos procurar simultaneamente uma melhor formação, um aprofundamento do nosso amor e um testemunho mais claro do Evangelho. […] Todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O teu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, é o que deves comunicar aos outros” (EG 121).
O campo próprio da actividade evangelizadora dos fiéis leigos, como já se disse, é o das rea-lidades temporais: o mundo da política, da assistência social, da economia, da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos "mass media" e ainda outras realidades aber-tas para a evangelização: a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento humano. Tudo a partir da nossa identidade cristã de nos saber-mos amados por Deus-Amor e chamados a ser instrumentos do seu amor. Quantos mais leigos houver impregnados do Evangelho, responsáveis em relação a tais realidades e com-prometidos claramente nas mesmas, competentes para as promover e conscientes de que é necessário fazer desabrochar a sua identidade cristã, muitas vezes escondida e asfixiada, tanto mais essas realidades - sem nada perderem do seu carácter humano - se colocam ao serviço da edificação do Reino de Deus e, por conseguinte, da salvação em Jesus Cristo (cf. EN 70).
7. Em virtude da comum dignidade baptismal, o fiel leigo é, pois, corresponsável, juntamen-te com os ministros ordenados e com os religiosos e as religiosas, pela missão da Igreja. Nesta missão, os fiéis leigos têm um lugar original e insubstituível. Por meio deles, a Igreja de Cristo torna-se presente nos mais diversos sectores do mundo, como sinal e fonte de esperança e de amor (cf. CFL 7). De facto, os fiéis leigos são “embaixadores de Cristo” (II Cor 5,20) no espaço público, no coração do mundo. No entanto, o seu testemunho cristão só será credível se forem profissionais competentes e honestos (cf. AM 128). A participação no múnus profético de Cristo habilita e empenha os fiéis leigos a acolher, na fé, o Evangelho e a anunciá-lo com a palavra e com as obras (cf. Tg 2,14-26), sem medo de denunciar corajosamente o mal. Constituídos testemunhas de Cristo Ressuscitado, os fiéis leigos são chamados a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho, na sua vida quotidiana - familiar, profissional e social - e a manifestar, com paciência e coragem, nas contradições da vida e da história, a sua esperança na acção amorosa de Deus que (co)move os corações.
Nem os cuidados familiares, nem as outras ocupações “profanas”, devem ser alheias à vida espiritual do fiel leigo (AA 4). Vividos em Cristo, todos os trabalhos, orações e compromissos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o labor de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, assim como as próprias dificuldades da vida, consagram a Deus o próprio mundo (cf. LG 34). Dessa forma, o estar e o agir no mundo são, para os fiéis leigos, uma realidade não apenas antropológica e sociológica, mas também, e especificamente, teológica e eclesial. É vivendo uma forte identidade cristã no mundo, que Deus manifesta o Seu Amor e comunica a especial vocação dos leigos de procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo os desígnios de Deus (cf. CFL 15). Um cenário maravilhoso se abre então aos olhos iluminados pela fé: o de inúmeros fiéis leigos, homens e mulheres, que, precisamente na vida e nas ocupações do dia a dia, muitas vezes “invisíveis” ou até incompreendidos e ignorados pelos grandes da terra, mas vistos com amor pelo Pai, são trabalhadores incansáveis que cultivam a vinha do Senhor, artífices humildes do crescimento do Reino de Deus na história (cf. CFL 17).
8. Olhando para a missão da Igreja e, em particular, dos fiéis leigos na sociedade de hoje, sobressaem alguns desafios que importa destacar sucintamente:
4.1 A defesa da vida e da dignidade da pessoa humana
A missão do fiel leigo na sociedade encontra o seu fundamento - e a plataforma de diálogo e colaboração com quem não partilha a fé cristã – no respeito profundo pela dignidade humana de cada filho e filha de Deus, criados à Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,27), e na atenção particular aos mais vulneráveis, sabendo que uma ofensa a um destes mais pequeninos é uma ofensa ao próprio Deus (cf. Mt 25,31-46 e I Jo 4,20).
Em virtude da sua dignidade pessoal, o ser humano é sempre um valor em si e por si e exige ser considerado e tratado como tal. Nunca pode ser considerado e tratado como um objecto que se usa, um instrumento, uma coisa. Descobrir e ajudar a descobrir a dignidade inviolável de cada pessoa humana constitui uma tarefa essencial do serviço que a Igreja - e nela, os fiéis leigos - é chamada a prestar à família humana.
9. A dignidade pessoal constitui o fundamento da igualdade de todos os seres humanos entre si. Daí, a absoluta recusa de todas as mais variadas formas de discriminação que, infelizmente, continuam a dividir e a desumanizar a nossa sociedade, desde as raciais e económicas às culturais e sexuais, das políticas e geográficas às religiosas e sociais. Toda a discriminação é uma injustiça absolutamente intolerável. A dignidade pessoal é, não só fundamento da igualdade entre os seres humanos, mas também o fundamento da participação e da solidariedade. O respeito, o diálogo e a comunhão têm a sua raiz naquilo que cada pessoa é, antes e mais do que naquilo que ela tem (cf. CFL 37).
Neste contexto, é fundamental que os leigos cristãos – e todos os membros da sociedade – promovam e defendam a dignidade inviolável de cada Pessoa e principalmente daquelas que se encontram em situação de vulnerabilidade, seja por responsabilidade própria ou alheia. É com profunda tristeza e inquietação que vemos a forma desumana como muitos dos nossos irmãos e irmãs são maltratados em diversas situações quotidianas: crianças impedidas de nascer; pessoas exploradas no seu trabalho, desalojadas e expulsas das suas áreas de residência sem justa compensação; pessoas vítimas de violência e de outros abusos por serem imigrantes ilegais ou por estarem detidos ou presos; pessoas sem emprego, sem perspectivas de futuro; crianças e velhos vítimas das crenças na feitiçaria, etc. (cf. GS 27). É importante que os leigos cristãos não sejam meros espectadores diante deste mundo injusto, mas sintam sobre si a responsabilidade de se comprometerem activamente, pessoalmente e em grupo, na luta a favor da vida, da pessoa humana e da sua dignidade, de uma sociedade mais justa e fraterna.
10. O respeito por cada pessoa humana concreta ultrapassa a exigência de uma moral indi-vidual e coloca-se como pilar fundamental na estruturação da própria sociedade. Assim, intimamente ligada à responsabilidade de servir a pessoa, os fiéis leigos são chamados, segundo a sua vocação específica, a servir a sociedade (cf. CFL 38-39). A caridade, com efei-to, anima e sustenta a solidariedade activa que olha para a totalidade das necessidades do ser humano. Se for vivido na sua verdade de serviço desinteressado ao bem das pessoas, especialmente às mais carenciadas e negligenciadas pelos serviços sociais, o voluntariado torna-se uma importante expressão de apostolado, onde os fiéis leigos, homens e mulheres, desempenham um papel de primeiro plano (CFL 41).
4.2 A vida familiar
11. A desestruturação familiar é um dos mais graves problemas que as nossas sociedades  enfrentam. É paradoxal que o investimento cada vez maior na preparação académica e pro-fissional não seja acompanhado de uma maior preparação dos jovens e adultos para as exi-gências da vida familiar. Neste campo, os cursos de preparação para o matrimónio são cha-mados a desempenhar um papel cada vez mais relevante, visando não apenas a celebração litúrgica, mas a construção de uma vida cristã em família. Todavia, na vida familiar, como em muitos outros domínios, o exemplo vale mais que todas as palavras e conselhos. Infelizmente também aqui os interesses mesquinhos de curto prazo parecem sobrepor-se, demasiadas vezes ao amor e ao respeito mútuos, que são a base de uma família estável e feliz.
12. O casal e a família constituem o primeiro espaço para o empenhamento social dos fiéis leigos. Trata-se de um compromisso que só poderá ser vivido adequadamente na convicção do valor único e insubstituível da família para o progresso da sociedade e da própria Igreja. É urgente, portanto, realizar uma acção vasta, profunda e sistemática, apoiada não só na cultura, mas também nos meios económicos e nos instrumentos legislativos, destinada a assegurar à família a sua função de ser o lugar primário da humanização da pessoa e da sociedade. A acção apostólica dos fiéis leigos consiste, antes de mais, em tornar a família consciente da sua identidade de primeiro núcleo social e do seu papel original na sociedade e na Igreja, para que a própria família se torne cada vez mais protagonista activa e responsável do seu crescimento e da sua participação na vida social (cf. CFL 40). A família é a primeira célula da sociedade e a primeira escola da fé. Ressalte-se a importância, por isso, da família no surgimento e desenvolvimento das vocações de especial consagração: vocações ao sacerdócio, à vida religiosa, leigos consagrados. Sobre este tema, é salutar retomar as mensagens pastorais da CEAST sobre a família, no triénio 2011-2013.
4.3 A vida política, social, económica e cultural
13. Uma das áreas mais exigentes do apostolado cristão é o compromisso na vida e nas acti-vidades políticas. Por isso, “a Igreja louva e estima a actividade daqueles que se dedicam ao bem da coisa pública e aceitam os respectivos cargos para bem de todos” (GS 75). Àqueles que desprezam a actividade política ou acham que os cristãos se devem afastar das activida-des políticas porque estas são “lugar corrupção”, o Concílio Vaticano II ensina que as reali-dades temporais não são “inimigas da alma”, mas o lugar onde acontece a salvação de Jesus Cristo, pelo que os leigos são especialmente chamados a nele intervir. A política é uma for-ma exigente de viver a caridade. Como afirmou Paulo VI, na Octogesima Adveniens, 86: “A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros”.
14. Os fiéis leigos devem evitar, neste campo, duas grandes tentações: impor pela força a sua própria visão da sociedade ou “fugir” da sua responsabilidade, não se comprometendo na vida política. Um político cristão é chamado a promover o bem comum e encontrar a sua linha de acção na defesa e na promoção da justiça, favorecendo o exercício dos direitos e dos deveres de todos e de cada um.
No exercício do poder político é fundamental o espírito de serviço, único capaz de, ao lado da necessária competência e eficiência, tornar transparente a actividade dos políticos, como aliás o povo justamente exige. Isso pressupõe a luta aberta e a decidida superação de certos vícios, tais como:
•    o recurso à deslealdade e à mentira,
•    o desperdício do dinheiro público em vantagem de uns poucos e com miras de clien-tela,
•    o uso de meios equívocos ou ilícitos para a todo o custo conquistar, conservar e aumentar o poder.
Isso exige que os fiéis leigos assumam uma plena e real participação na vida da Igreja e se deixem iluminar, tanto pela sua doutrina social (cf. CFL 42) como pelo testemunho de cris-tãos que assumiram o exercício da política de forma íntegra, como Konrad Adenauer (Ale-manha), Robert Schuman (França), Alcide De Gasperi (Itália), Julius Nyerere (Tanzânia), Lou-renço Mendes da Conceição (Angola) e tantos outros.
15. A educação e a vida cultural de um país marcam profundamente o seu presente e o seu futuro. Por isso, os fiéis leigos são chamados a estar presentes, com coragem e criatividade intelectual, nos lugares privilegiados da cultura, como são o mundo da escola e da universi-dade, os ambientes da investigação científica e técnica, os lugares da criação artística e da reflexão humanística. A gravidade deste ponto exige de todos nós o conhecimento aprofun-dado da nossa sabedoria tradicional e a promoção dos nossos valores verdadeiramente afri-canos; convida-nos a evitar a desastrosa política da tábua rasa em relação ao nosso passado e a não identificar novidades ligadas à moda, como símbolos da cultura nacional.
16. Por outro lado, no que se refere aos meios de comunicação, tornam-se urgentes, tanto uma acção educativa em ordem ao sentido crítico, animado da paixão pela verdade, como uma acção de defesa da liberdade, do respeito pela dignidade da pessoa humana, da eleva-ção da autêntica cultura dos povos, com a recusa, firme e corajosa, de toda a forma de monopolização e de manipulação.
Mas não deve ficar por aqui a responsabilidade pastoral dos fiéis leigos: em todos os cami-nhos do mundo, também no da imprensa, do cinema, da rádio, da televisão e do teatro, deve-se anunciar o Evangelho que salva (CFL 44).

5. OS MOVIMENTOS E ASSOCIAÇÕES LAICAIS
17. A comunhão eclesial, já presente e operante na acção individual, encontra uma expres-são específica no agir associado dos fiéis leigos, isto é, na acção solidária que eles desenvol-vem ao participar responsavelmente na vida e na missão da Igreja.
Há uma grande riqueza e variedade de grupos, movimentos e associações de fiéis leigos. Mesmo aparecendo sob formas bastante diferentes, convergem na finalidade que os anima: a de participar responsavelmente na missão da Igreja de levar o Evangelho de Cristo ao mundo, qual fonte de esperança e de renovação para a sociedade. Deste modo, não faz sen-tido qualquer sentimento de superioridade ou rivalidade, sendo todos chamados a colaborar, de forma complementar e construtiva, na missão da Igreja.
18. É sumamente aconselhável que os fiéis leigos, segundo a sua vocação específica, se inte-grem nos grupos, movimentos ou associações de leigos, onde podem alimentar a sua expe-riência cristã e fazer frutificar os dons recebidos do Espírito Santo para edificação da comu-nidade. Evitem-se, todavia, múltiplas pertenças já que isso leva, por vezes, à dispersão de energias, afectando negativamente as suas responsabilidades familiares e profissionais e prejudicando a eficácia apostólica da pessoa em particular e do grupo, movimento ou asso-ciação.
Os diversos grupos, movimentos e associações de fiéis leigos representam, para muitos, uma ajuda preciosa em favor de uma vida cristã coerente com as exigências do Evangelho e de um generoso empenho missionário e apostólico. Por isso, devem merecer, por parte dos pastores e das religiosas e dos religiosos, uma especial atenção no seu acompanhamento pastoral e no seu enquadramento na vida da Igreja, favorecendo a sua participação activa na comunidade cristã.
19. É necessário reconhecer-se a liberdade associativa dos fiéis leigos na Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro e próprio direito, que não deriva de uma espécie de «concessão» da autoridade, mas que brota do Baptismo, qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem activamente na comunhão e na missão da Igreja. É sempre na perspetiva da comunhão e da missão da Igreja, que se compreende a necessidade de claros e precisos critérios de discernimento e de reconhecimento das agregações laicais, também chamados «critérios de eclesialidade». A comunhão eclesial exige, além disso, que se reconheça a legítima pluralidade das formas associativas dos fiéis leigos na Igreja e, simultaneamente, a disponibilidade para a sua recíproca colaboração. Os grupos, movimentos e associações de fiéis leigos devem ser correntes vivas de participação e de solidariedade para construir condições mais justas e fraternas, no seio da sociedade (cf. CFL 30).
20. O facto de pertencerem a movimentos e associações laicais, não dispensa os fiéis leigos de cultivar o sentido de pertença à Diocese e à Paróquia – “é muito salutar que não percam o contacto com esta realidade muito rica da paróquia local e que se integrem, de bom grado, na pastoral orgânica da Igreja diocesana. Esta integração evitará que fiquem só com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se transformem em nómadas sem raízes” (EG 29). Mas, para responder às necessidades das cidades e das regiões rurais, não confinem a sua cooperação aos limites da Paróquia ou da Diocese, mas esforcem-se por estendê-la ao âmbito inter-paroquial, inter-diocesano, nacional ou internacional, tendo particular atenção para com as necessidades específicas dos migrantes e das populações e pessoas mais carenciadas.

6. OS MINISTÉRIOS LAICAIS
21. O fiel leigo «não pode fechar-se nunca em si mesmo, isolando-se espiritualmente da comunidade, mas deve viver num contínuo intercâmbio com os outros, com um vivo sentido de fraternidade, na alegria de uma igual dignidade e no empenho em fazer frutificar ao mesmo tempo o imenso tesouro recebido em herança. O Espírito do Senhor dá-lhe, como aos outros, múltiplos carismas; convida-o a diferentes ministérios e funções; recorda-lhe, como também recorda aos outros em relação a ele, que tudo o que o distingue não é um suplemento de dignidade, mas uma especial e complementar habilitação para o serviço... Deste modo, os carismas, os ministérios, as funções e os serviços do fiel leigo existem na comunhão e para a comunhão. São riquezas complementares em favor de todos, sob a sábia orientação dos Pastores» (CFL 20).
22. Quando a necessidade ou a utilidade da Igreja o pedir, os pastores podem confiar aos fiéis leigos certas funções que, embora ligadas ao seu próprio ministério de pastores, não exigem, contudo, o carácter da Ordem. O Código de Direito Canónico prevê que “onde as necessidades da Igreja o aconselharem, por falta de ministros, os leigos, mesmo que não sejam leitores ou acólitos, podem suprir alguns ofícios, como os de exercer o ministério da palavra, presidir às orações litúrgicas, conferir o Baptismo e distribuir a Sagrada Comunhão, segundo as prescrições do direito” (CIC 230º § 3). Todavia, o exercício de semelhante tarefa não transforma o fiel leigo em pastor (cf. CFL 23).
23. O exercício de ministérios na comunidade cristã revela a necessidade de uma formação integral e permanente dos fiéis leigos, entendida como um contínuo processo pessoal de maturação na fé e de configuração com Cristo. Por isso, a formação dos fiéis leigos deverá figurar entre as prioridades da Diocese e ser colocada nos programas de acção pastoral, de modo que todos os esforços da comunidade (sacerdotes, leigos e religiosas/os) possam con-vergir para esse fim (cf. CFL 57). É fundamental dar aos leigos um verdadeiro conhecimento da sua missão eclesial e exortá-los a realizá-la com sentido de responsabilidade, procurando sempre o bem comum. Os programas de formação permanente dos leigos, particularmente responsáveis políticos e económicos, deverão insistir sobre a conversão a Cristo como condi-ção necessária para transformar o mundo (cf. AM 103).
24. Neste campo, importa igualmente dedicar especial atenção à condição e ao papel da mulher, num dúplice objectivo:
•    reconhecer e convidar a que todos reconheçam o indispensável contributo da mulher na edificação da Igreja e no progresso da sociedade
•    e elaborar, além disso, uma análise mais específica acerca da participação da mulher na vida e na missão da Igreja.
O claro reconhecimento da dignidade pessoal da mulher constitui o primeiro passo a dar-se para promover a sua plena participação, tanto na vida eclesial como na social e pública. A Igreja, como expressão da sua missão, deve opor-se firmemente a todas as formas de dis-criminação e de abuso das mulheres. As mulheres participem na vida da Igreja sem discriminação alguma. As mulheres, que já têm tanta importância na transmissão da fé e na prestação de serviços de toda a espécie na vida da Igreja, sejam associadas à preparação dos documentos pastorais e das iniciativas missionárias e reconhecidas como cooperadoras da missão da Igreja, na família, na profissão e na comunidade civil. (cf. CFL 49.51)

7. A FÉ COMO VIDA E COMPROMISSO - BUSCAR A SANTIDADE CRISTÃ NO MUNDO
25. Todos os fiéis são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (cf. LG 40). Neste contexto, é bom não esquecer as palavras do Papa João Paulo, na Carta Apostóli-ca “Novo Millennio Ineunte”, escrita para o início do novo milénio: “Em primeiro lugar, não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade. (…) Terminado o jubileu, volta-se ao caminho ordinário, mas apontar a santidade permanece de forma mais evidente uma urgência pastoral.” (NMI 30) 
É preciso, pois, redescobrir, em todo o seu valor programático, o capítulo V da Constituição dogmática Lumen Gentium, intitulado «vocação universal à santidade». Se os Padres conci-liares deram tanto relevo a esta temática, não foi para conferir um toque de espiritualidade à eclesiologia, mas para fazer sobressair a sua dinâmica intrínseca e qualitativa. Na verdade, colocar a Programação Pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Baptismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus, através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contra-senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. “Perguntar a um catecúmeno: «Queres receber o Baptismo?» Significa ao mesmo tempo pedir-lhe: «Queres fazer-te santo?» Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: «sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai Celeste» (Mt 5, 48; NMI 30 2 31).”
26. A vida segundo o Espírito, cujo fruto é a santificação (Rom 6, 22; cf. Gal 5, 22), suscita e exige de todos e de cada um dos baptizados o seguimento e imitação de Jesus Cristo, no aco-lhimento das bem-aventuranças, na escuta e meditação da Palavra de Deus, na consciente e activa participação na vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração individual, familiar e comunitária, na fome e sede de justiça, na prática do mandamento do amor em todas as circunstâncias da vida e no serviço aos irmãos, sobretudo os pequeninos, os pobres e os doentes (cf. CFL 16).
27. A missão dos fiéis leigos não está obviamente isenta de dificuldades e de perigos. Em especial, podem recordar-se duas tentações: a de mostrar um exclusivo interesse pelos ser-viços e tarefas eclesiais, por forma a chegarem frequentemente a uma abdicação das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, económico, cultural e político e a tentação de fazer uma indevida separação entre a fé e a vida, entre a aceitação do Evangelho e a acção concreta nas mais variadas situações da vida. (cf. CFL 2)
Para que não se caia nestas tentações, é fundamental um trabalho contínuo e sistemático de formação dos fiéis leigos sobre as responsabilidades inerentes a uma vida cristã autêntica. É desejável que, na preparação para o sacramento da Confirmação, todos os crismandos façam, pelo menos, um ano de formação catequética sobre o pensamento social da Igreja, para que se tornem verdadeiramente cristãos-adultos na fé e na vida.
28. Não podemos, no entanto, ficar satisfeitos apenas com ciclos catequéticos em função da recepção dos sacramentos, sendo de louvar todas as iniciativas - de instituições de ensino, paróquias, movimentos e associações e outros - que visam uma formação consistente (humana, bíblica e teológica) dos fiéis leigos. Não nos esqueçamos de que, nos nossos países, nunca tivemos como hoje, um número tão grande de jovens com acesso ao ensino superior e que isto exige também um acompanhamento específico da Igreja, para que estes jovens não se tornem apenas adultos na vida profissional e social, mas também na vida da fé.
O acompanhamento de jovens universitários e de profissionais cristãos - em campos tão diversos como a educação, a saúde, a justiça, a política partidária – é, sem dúvida, uma das principais prioridades pastorais das nossas Igrejas. Por outro lado, importa ter consciência que este necessário esforço de formação não se pode limitar a transmitir conhecimentos, devendo ser acompanhado de um enquadramento em pequenos grupos, movimentos, asso-ciações, onde se possam aprofundar as questões, partilhar a fé e alimentar uma relação orante com Deus.

8. CONCLUSÃO
29. Novas situações, tanto eclesiais como sociais, económicas, políticas e culturais, reclamam hoje, com uma força toda particular, a acção dos fiéis leigos. Se o desinteresse sempre foi inaceitável, hoje torna-se ainda mais grave. Como nos recorda o Papa Francisco, “cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja. Embora não suficiente, pode-se contar com um numeroso laicado, dotado de um arreigado sentido de comunidade e uma grande fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da cele-bração da fé. Mas, a tomada de consciência desta responsabilidade laical, que nasce do Baptismo e da Confirmação, não se manifesta de igual modo em toda a parte; nalguns casos, porque não se formaram para assumir responsabilidades importantes, noutros, por não encontrar espaço nas suas Igrejas particulares para poderem exprimir-se e agir, por causa dum excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões. Apesar de se notar uma maior participação de muitos nos ministérios laicais, este compromisso não se reflecte na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e económico; limita-se, muitas vezes, às tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade. A formação dos leigos e a evangelização das categorias profissionais e intelectuais [ainda] constituem um importante desafio pastoral” (EG 102).
Apesar das dificuldades, não podemos desanimar, pois sabemos em quem pusemos a nossa confiança (cf. II Tim 1,12). É o Senhor Jesus que nos conduz e nos encoraja dizendo: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem. Eu venci o mundo”! (Jo 16,33).
Que a Virgem Santa Maria, modelo de vida e santidade, nos guie pelos caminhos da vida e nos ensine a “fazer tudo o que o seu Filho nos disser…” (cf. Jo 2,2).

Luanda, 29 Outubro 2014

OS BISPOS CATÓLICOS DE ANGOLA E S. TOMÉ E PRÍNC